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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Tiraste-me o chão e deram-me o mar

Não vais vir nunca mais
O tempo não vai lá estar
E eu estarei num sonho
que nunca foi o teu.
Tiraste-me o chão
E o mar entrou de supetão
Por entre palavras escritas
Durante o tempo improvável
Traçou uma viagem.

O sonho voltou inteiro
E o monstro voltou com ele.
Empurra-me o diafragma
Aperta-me o estômago.
Atira-me ao chão.

Ao sonho me atiro
E o monstro renasce.
Na proa do barco
Há um marinheiro a chamar.
O sentido chama-se viagem
E viagem implica partir.
Partir implica deixar.

Volta o medo
Quando me dão o mar.
À popa há um coro negro
De velhos e mães.
"Não vás!"
Atiro-me ao sonho
E o sonho sussurra.
Na proa o marinheiro chama
Eu espero entre o passado e o futuro.
Repito ou ouso?

Salto para o mar.
Não há balsa, nem bóia
Nem pai, nem mãe,  nem pesadelo.

Volta o sonho de mar
Volta o sonho de voar.
"Que fazes aí? Volta!"

Devolvo-te o chão
A cama velha
As velas na mesa
Os olhos do marinheiro arpoam os meus.

E vou! Para viver pela primeira vez.
Vence o mar, a viagem e o sonho de mim.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dei à costa

Dei à costa
farto de nadar sozinho
farto de correntes e vagas
farto de me cruzar com iguais
de olhos brilhantes, reluzentes, ondulantes.
 
Dei à costa
cansado de nadar e não chegar
cansado da caça e das fugas
cansado da rede e dos anzóis
cujas feridas o sal sempre curou ardendo.

Dei à costa
parei de nadar
e agora espero a maré
que me deixará na areia molhada
ainda peixe, ainda vivo
que o que quero é morrer.

Quero que me apanhem fresco
vermelho onde filtro o que também me dá vida
quero me escalem simetricamente
e me deixem aberto, salgado e seco.

Quero que me esventrem, me tirem as vísceras
que me abram de par em par
e me pendurem para secar
que a lareira está longe
e não me poderiam tomar.

Praia das Maçãs, 13 de Agosto de 2011

         Mafalda Mimoso 2010