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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Justificação de Aprendiz

Julgo que os aprendizes de escritor têm, pelos menos alguns, uma grande necessidade de se justificarem. Se não tiverem, tenho eu. E escrever que sou aprendiz de escritor, e de poeta - um calafrio passa pela espinha - é um passo de gigante, por isso, muito maior do que a minha perna, que sou de estatura média/baixa. Vou justificar então as possíveis novas entradas neste blog, que poderão ser mais de escrita diarística. Este blog não nasceu para isso. Mas nasceu para me forçar a escrever. E neste momento é esse tipo de escrita que me parece servir tal propósito.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Retrato escrito II

Imperador de vários impérios
Perfil romano de outras eras
Uma história em cada sulco de sol

Na boca o traço maior
Onde dentes longos e amarelecidos
Abrem um sorriso matreiro e ainda gaiato

Na pele o descuido pede desvelo
E nos olhos cansados um brilho menino
Carrega tristeza nas costas das aventuras

Redonda a cabeça e o cabelo alvo
Ondas fortes que se agarram ao escalpe
Índio de pele clara e de reservas perdidas

São verdes os olhos nos globos sem ardor
Coberto por vários véus imagina-se livre
Nos apetites e nos impulsos

Indicia arrependimentos longínquos
Rejeições sucessivas e perdas de outrora
Voltado para trás quer ser esperado

Imagina-se fundo para não se dar ao amor
Esconde-se atrás do passado e do desamparo
E aí encontra encanto para se continuar

Protege para se defender
Teima na máscara de rufia
Que deixou colada à superfície

Avança para baixar a guarda
Numa segurança galã
Que desarma anseios e alimenta sonhos

Encontra razão nos fortes
E força nos fracos
E esquece-se de si entre honras e despojos

Está para além dos sulcos e do descuido
Mais fundo do que o arrependimento e as disputas
Longe das memórias e do passado movediço

É um menino à beira da verdade
Querendo ser aceite no todo
Na sombra e o no brilho

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Retrato escrito I

Os olhos estão vestidos
Guardados num cofre frio
Metálicos não para ferir
Blindados para não sentir.
Metálicos são os cabelos
E a pele transporta a mesma armadura
Tudo tem a cor de outrora
Sentem-se as trevas da terra média
A luz não corta a espessa capa
O medo está sempre à espreita
Nunca foi a morte o fim
Nem quando bateu à porta.
O rosto encerra outra escuridão
Faz temer o contágio
E o lar das almas perdidas
Duros os lábios e outros sulcos
Trincheiras de si e dos demais
Lugares de batalhas perdidas
Eremita de cela solitária
Frade sem convento nem irmandade
Bondade que se dá sem reter
Represa que se desistiu de construir

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Write me a poem

                                                                                                   Hugo Santos

Sei em mim imediatamente

Sei em mim imediatamente
não se o outro é branco ou preto
mau ou bom
não quais as cenas do filme
nem como será o seu final

Sei o fim da história antes do começo
E duvido
E entrego o que tenho
E dou o meu sangue
E a vida confirma do que padeço

Sei
E cego
E apalpo
E guardo
E não me arrependo

Sei
As sombras
Os brilhos
Os voos
As profundezas

Sei em mim imediatamente
O fim das minhas vidas

                                                                                                                                                           Mafalda Mimoso 2012

sábado, 9 de janeiro de 2010

Fim

Esmago-me contra os meus braços
Contorço-me debaixo do peso que é teu
O ser inteiro transporta-se sem ti.
Cravas os olhos vítreos nos meus
E nestes ombros os teus dedos finos e frios
Gritam que é o fim.
Sorrio vencedora
Não há mais labirintos nem cápsulas espaciais
Já não se espera.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Má consonância

Quem entra pelos fundos e encontra um homem à beira da morte,
Só pode esfacelar-se nas ravinas, olhar o xadrez dos outros
E sair de cena descalça pela praia.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Aqui - Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Creio - Natalia Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amén.