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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Máquina do amor

Há coisas mágicas,
que fluem com facilidade
Fronteiras que não são limites
Restrições que não angustiam
Uma máquina de amor perfeita.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Retrato escrito II

Imperador de vários impérios
Perfil romano de outras eras
Uma história em cada sulco de sol

Na boca o traço maior
Onde dentes longos e amarelecidos
Abrem um sorriso matreiro e ainda gaiato

Na pele o descuido pede desvelo
E nos olhos cansados um brilho menino
Carrega tristeza nas costas das aventuras

Redonda a cabeça e o cabelo alvo
Ondas fortes que se agarram ao escalpe
Índio de pele clara e de reservas perdidas

São verdes os olhos nos globos sem ardor
Coberto por vários véus imagina-se livre
Nos apetites e nos impulsos

Indicia arrependimentos longínquos
Rejeições sucessivas e perdas de outrora
Voltado para trás quer ser esperado

Imagina-se fundo para não se dar ao amor
Esconde-se atrás do passado e do desamparo
E aí encontra encanto para se continuar

Protege para se defender
Teima na máscara de rufia
Que deixou colada à superfície

Avança para baixar a guarda
Numa segurança galã
Que desarma anseios e alimenta sonhos

Encontra razão nos fortes
E força nos fracos
E esquece-se de si entre honras e despojos

Está para além dos sulcos e do descuido
Mais fundo do que o arrependimento e as disputas
Longe das memórias e do passado movediço

É um menino à beira da verdade
Querendo ser aceite no todo
Na sombra e o no brilho

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Retrato escrito I

Os olhos estão vestidos
Guardados num cofre frio
Metálicos não para ferir
Blindados para não sentir.
Metálicos são os cabelos
E a pele transporta a mesma armadura
Tudo tem a cor de outrora
Sentem-se as trevas da terra média
A luz não corta a espessa capa
O medo está sempre à espreita
Nunca foi a morte o fim
Nem quando bateu à porta.
O rosto encerra outra escuridão
Faz temer o contágio
E o lar das almas perdidas
Duros os lábios e outros sulcos
Trincheiras de si e dos demais
Lugares de batalhas perdidas
Eremita de cela solitária
Frade sem convento nem irmandade
Bondade que se dá sem reter
Represa que se desistiu de construir

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Espelho teu

Como pode tudo partir de ti?
Tu avanças, aproximas-te, moves-te
Quando queres, como queres.

És a tua única motivação
És o teu único objectivo.

Dentro de ti o outro nunca existe.

O outro é um espelho de ti mesmo
O outro reflecte o que de ti queres ver.

Que desinteressante é
O que está atrás do espelho
O que está além do espelho
O que no espelho possas ver
Que não sejas tu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Nos degraus da carne pura

Parou-a no meio das palavras:
Tinha de falar ali, em sons e sem olhos
Do que a move e eleva.
Não falou. Incapaz.
Não foi vergonha moral
Foi medo do desperdício.
Não foi insegurança de si
Foi o desmoronamento eminente.

Terreno e carnal
Ele fala, ela faz.
Elevado e fundo
Dele não se conhece
Ela assim o pensa e sente.

Da pele e dos gemidos
Das palavras imperativas
E dos dedos enterrados
Abre as pernas para sair de si.
O passo é incomensurável
Sempre além
Empurrando os limites.

Beijou-a beijos diversos.
Beijos que guardou em caixinhas
Beijos que sabe não conter.
Sentiu os seios cheios e tensos
Recordou domínios
De pedaços de si.

Entrou nele
Cheia de prazer
Agarrou-o por dentro
No domínio presente.
Controlando aqui
Gozando sempre
Ainda que nas suas mãos.

Ele brinca com ela
Directo e mordaz.
Ela escorrega nas curvas
Dos cérebros, despreocupada
Solta, feliz.

É no corpo
Veículo de outros deuses
Passagem estreita
Ritual sinalagmático
Que tudo pára

Antes

De nos olhos
Se elevarem
Trepando nos degraus
Da carne pura.

sábado, 1 de agosto de 2009

I love you. My children.

The heart grows,
Pushes against the lungs,
Knocks against the bones,
Ruptures the skin.

How I wish you would feel my Love
In my embrace.
Huge
Transcending us.

I plunge into your eyes
So that you may sense me
Whole within you.
For ever
In an eternal leap.

I do not wish to dish out food on to your plates
I do not wish to teach you to read and count.
I wish to kiss you
To cling to you
Invisible
Priestly
In the same geminal love.

Goa, India, 2004