terça-feira, 31 de julho de 2012

Enfeites

Oval, na sua casca fina, nem branca, nem castanha, espera vazio, no seu casulo velho e preto.
Esvaído por um furo, enfeitado para a morte ou para o nascimento, adormece num cesto ou jaz enforcado numa árvore.
Frágil, quebradiço, reciclado entre mezinhas fortificantes ou iguarias mexidas, vê assim a sua vida prolongada.
Até que se rebobine o filme e a semente de vida esgotada retorne, renovada.

Lisboa, Novembro de 2011

domingo, 29 de julho de 2012

Cogumelos mágicos

Há os que cruzam a vida sem possibilidade, probabilidade ou desígnio.
Há os que navegam o rio sem deixar de parar no possível, sem estender o braço ao provável, sem largar a amarra do planeado.
Há os que nem uma coisa, nem outra. O que já foi feito, o que feito foi incontáveis vezes - o provável, diriam muitos - não os impede de se atirarem ao rio. Os bancos de areia, os rápidos, os redemoinhos, as curvas rochosas, os troncos submersos, não lhe são invisíveis, nem desconhecidos o seu alcance e proporção. Não são os sonhos, nem a geografia que lhes alimenta a alma. Eles comem cogumelos mágicos que brilham no escuro.

sábado, 28 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bola de pêlo


É estranho como anda dentro de mim uma bola de pêlo que não consigo vomitar. Sinto as convulsões, as frases rodopiam na minha cabeça, o coração está dorido e nada sai. Ou sai, o mesmo e para nada. É- me muito difícil viver sem partilha e sem entrega de corpos e almas. Crescem as dúvidas sobre quem é o outro comigo. Adorava que esta história confirmasse a minha teoria do âmago e do resto. E gostava que fôssemos, para cada um, um espaço e tempo de paragem, de liberdade para ser sem medos. Abertos e soltos.
Lisboa, Janeiro 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Aforismo

As melhores mortes, as definitivas, acontecem em camas usadas, às quais voltamos para morrer.
Best deaths, those which last for ever, happen on worn beds, to which we return to die.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Chema Madoz - Fotografia e poesia visual


"Chema Madoz es uno de los exponentes más representativos, en España, de la llamada poesía visual. Sus fotografías suponen un camino hacia la reflexión basada en figuras literarias, tales como la metáfora, la hipérbole o la ironía, figuras que traspasa al mundo de la imagen. Premio Nacional de Fotografía en el año 2000, el fotógrafo madrileño ha alcanzado un gran prestigio nacional e internacional avalado por numerosas exposiciones y varias publicaciones sobre su obra. Chema Madoz ha impartido un taller de fotografía en la Facultad de Ciencias de la Comunicación de Málaga, auspiciado por la Fundación Gacma."

domingo, 18 de março de 2012

Abri as portadas

Entrei na sala escura e colei-me à tela gigante
Abriu-se de pó uma estrada branca na luz quente
Cruzava-se uma diagonal imperfeita,
De baixo para cima, da direita para a esquerda.
Saltei para a garupa seguida de uma carroça
O pó sabia a açucar caramelizado
Os cavalos cheiravam a amoras maduras
E a carga cansada dos tombos queria chegar.
Não sei quem era o homem que me seguia
O focinho colado à minha garupa na falta do mapa
Que nada mais lhe fora dito que seguir e descarregar
Para que se parassem por ora os tombos e as nódoas roxas.
Voei pelas estradas grandes, pairei por baixo das árvores
O verde tomou conta do caminho, o frio da pele
O destino aproximou-se e com ele memórias e sonhos
Mais perto o mar, o papel e os olhares.
Atravessei um lugar medonho, onde se tenta ser feliz
A antiga estrada estreita e a mesma sebe alta e desalinhada
                                                               crescia a meu lado
O portão abriu-se, subiu-se a pequena rampa
A carroça entrou e o homem descarregou.
Vi tudo no chão
Caixas coloridas, livros por ler, roupas antigas,
Quadros queridos, cadernos de notas incompletos
Abri as portadas e de dentro tirei o que não era meu.