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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Les uns et les autres

Quanto do que faço
Faz de mim ser
Quanto do que sou
Está comigo no fazer

O acto e a essência
A prática e a identidade
A unicidade e o catálogo
A adequabilidade

Sem sinais sem placas
Sem nome sem igual

Um ser cem práticas
Um único cem traços

O resto e o âmago
Os pratos e os carris
A ilha e o mar
A liberdade

Quanto do que é nosso
Sou eu
Quanto de ti
Somos nós

sábado, 17 de outubro de 2015

Metamorfoses

Voltei a chorar
Nem de tristeza
Nem de dor
Nem de alegria profunda.
Chorei de profunda comoção
De extrema vulnerabilidade.

Estão a cair-me as escamas.

Não sei se de peixe
Ou de cobra
Não sei se o que cai é a pele velha,
A dar lugar à nova, forte
E igualmente escamosa
Que lhe vai tomat o lugar,
Ou se de peixe perco as escamas
Para ganhar penas e patas
E voar.




sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Espero por ti numa madrugada

Encontrei-o na terra de ninguém
Num lugar de passagem
Falando uma língua franca.

Palavras e gestos
Vozes e corpos
Rodeados de fantasmas e medos
Desossaram o cadáver da luxúria.

Ficámos com os ossos
Que deitámos num caldeirão alquímico.

É um estrangeiro que agora partilha
O berço e a esperança da Democracia
E viaja entre a mitologia e os novos homens.

Sou uma apátrida por nascer
Uma mulher sem tribo
Em busca do útero perdido.

Sabemos do que somos capazes

Subir aos cumes mais altos
Descer onde a água é negra

Unir os corpos sem convidar Platão nem Afrodite
Esquecendo Ares e Adónis

Coser os lábios sem teias
Separados por um fio de seda
Doce como algodão de feira
Macio como polpa de fruto maduro.

Coloquei o seu olhar
no mais delicado guarda-jóias.

Penduro-o ao peito
Quando o meu coração
Chora de saudades.
Enfio-o no dedo
Quando quero
Que me abrace.

Pusemos as nossas ossadas na pira
para nos misturarmos no vento
E com o ar quente subirmos alto
E nos juntarmos ao invisível
Esse traço redondo e entrelaçado.

Mas sabemos-nos um quase sem remorso
Um quase que nos dá chão.

Não temos o mapa do além
E no que carregamos às costas
Não encontramos oxigénio.

Somos ossos que de carne só têm o cheiro.

Ansiamos a primordial cúpula celeste
O adágio de um orgasmo intersectado
O ar fresco e rarefeito
O sal das águas profundas
O fim das nossas guerras.

Sonhamos com uma armada indestructível
que sobre o mar voe
e nos salpique as entranhas
renascendo-nos.

Somos liberdade.

Sobre as paredes está o mar
Onde touros não colhem
E pássaros não chegam ao sol.

Ofereço-lhe a minha armadura
Para que a derreta
E dela nasçam puros castiçais.

Arderão luz e perfumes inebriantes
No veículo que escolhemos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Adeus ao precipício

As pontas dos pés na berma
A chuva ensopando o cabelo e o casaco grosso
O vento dobrando o chapéu de chuva branco
E lá em baixo a água escura chamava.

Ouviam-na os pensamentos
Que os gritos das crianças
Agarradas à saia travada
Puxavam no sentido oposto

Correu entre as bermas
Atrirou os miúdos à água
E ficou a olhar para dentro

Sentou-se e as pernas caídas
Ficaram mais perto da voz

O vento desenhava letras na chuva
As tempestades duplicavam-se

Letras substitutas, perturbadas
Letras certas, decididas
Letras libertadoras, pesadas

Tirou os miúdos da água
As pernas voltaram à berma
Disse adeus ao precipício
E desfigurada largou os sentidos

Apanhou-os no dia seguinte
Ao sol, secos e corados
Depois da incerteza
Chegara a bonança

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Liberdade de Imprensa em Portugal

"Tão simples como isto: os jornalistas devem dar-se ao respeito. Obviamente que trabalhamos numa área de mediação entre vários campos e interesses. Obviamente que estamos em zonas de choque. Obviamente que lidamos hoje com aparelhos de comunicação poderosíssimos. Há sempre pressões mas o importante é que o jornalista saiba viver com elas. Embora reconheça que nos últimos anos a liberdade de imprensa tem sido alvo de ameaças sérias, também me parece que os jornalistas não devem ter medo." António José Teixeira, director da SIC Notícias

http://www.ionline.pt/conteudo/40856--liberdade-imprensa-tem-sido-alvo-ameacas-serias

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Conter reflexo ou a miragem do oásis

O elástico tende e distende e não serve à contenção. Estica para além do improvável mas nunca encolhe àquem de si. Conter transitivo é ter dentro de si, encerrar, incluir. Conter reflexo é reprimir, coartar, violentar. A contenção encolhe, reduz, amarfanha. E quando a contenda é invisível esvaiem-se os limites do sujeito e do objecto. Confundem-se no amor e no ódio, na liberdade e na usurpação. Suga-se até à última gota, na miragem do oásis.